ARTAUD – Crítica de Florence de Merèdieu

ARTAUD. Taanteatro. Théâtre de Nesle. 2016.

por Florence de Merèdieu

 

Jornal Ethnographique.

Paris, 11 de dezembro de 2016.

04 de dezembro de 2016 – Fundada em São Paulo em 1991 (há 25 anos ) pela coreógrafa Maura Baiocchi, a companhia brasileira Taanteatro apresenta-se em Paris no Théâtre de Nesle. Ainda insuficientemente conhecida na França e na Europa, objeto de rumores mais positivos, apreendidos graças à leitura de alguns fragmentos de espetáculos que podem ser encontrados aqui e ali na internet, a trajetória do Taanteatro dá testemunho de uma grande riqueza e de uma maturidade impressionante.

A companhia multiplicou espetáculos em torno de Artaud. E foi “Artaud, le Momo” que Maura Baiocchi e Wolfgang Pannek apresentaram no Théâtre de Nesle.

“Artaud, le Momo”. Amplamente conhecido do público, o texto de Artaud foi nesses últimos anos, uma e outra vez, objeto de reprises.

Muitos são os “solistas” que se friccionam nesta obra canônica cansando muitas vezes o público pela escalada de mimetismo ao qual se entregaram quase todos os atores que representaram “Artaud Momo”.

A surpresa é – aqui – a maior. Pois o desempenho de Maura Baiocchi ultrapassa amplamente todas as interpretações dadas até agora. Além dos primeiros minutos em que ela interpreta a visão arquetípica de Artaud Momo, usando sua boina e vestindo seu largo manto, Maura Baiocchi não está mais no mimetismo mas na “simpatia”. No sentido forte e primeiro que reveste o termo.

Estamos então em outro universo. No da medula e do osso, de um inconsciente orgânico e alucinatório. Tudo passa por um gestual totalmente dominado e elaborado até no dilapidado e na ruptura. Trabalho meticuloso e repetido sobre os sistemas energéticos permitindo a definição em movimento de uma musculatura corporal que reage – de maneira milimétrica – à menor respiração e à mais indistinta inflexão da voz.

Sem dúvida, esta é a primeira vez que o Momo é incarnado dessa forma e por uma mulher. Esta ambiguidade sexual reforça ainda mais o sentimento de pertencimento de Maura Baiocchi ao seu “personagem”. Ela é Artaud e além de Artaud – funde-se em seus sonhos e suas obsessões, flui para a gimnopédia de seus anexos, desloca-se em cada um de seus duplos, em cada uma de suas sombras. Este universo é complexo. Andrógino, sobretudo. Furioso e abusado.

A mulher, no entanto, na transformação de um gesto ou de uma obsessão, reaparece nos nós da cabeleira. Se dobra e desdobra – estendida, encontrando-se, harmoniosa, sobre o fundo da natureza de um vídeo aquoso. O conjunto da performance é ainda mais forte ao conseguir lançar-se sobre um registro estendido … e conflituoso.

Durante todo o espetáculo, o desempenho sensacional de Maura Baiocchi é suportado e apoiado por um ambiente visual poético. Orquestradas por Wolfgang Pannek, projeções de vídeo (escritos, grafismos dançantes, paisagens e águas revoltas) amplificam o tema, fazendo literalmente dançar, dobrar e desdobrar o texto de Artaud.

E quando haverá uma apresentação do Taanteatro em Avignon? Nessa cidade de Papas que Artaud tão cruelmente repreendeu?

(Tradução de Wolfgang Pannek)

 

ARTAUD. Taanteatro. Théâtre de Nesle. 2016_(Texto original em francês)

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