ARTAUD, LE MÔMO – Crítica de Philippe Person

Artaud, le Mômo. Théâtre de Nesle (Paris). Novembro 2017.

Performance de Maura Baiocchi em torno dos textos de Antonin Artaud.

por Philippe Person

 

Evocar a figura alta e imberbe de Antonin Artaud, suas palavras incandescentes lançadas nas chamas da loucura, seu caminho torturado povoado de cactos mágicos e eletrochoques, isto já é sair da banalidade para se juntar a essa singularidade chamada poesia.

Aquele que Serge Gainsbourg situou entre os seus “terríveis da criação”, e que foi o alucinado Marat de “Napoleão” de Abel Gance, é um daqueles vagabundos celestiais que alguém precisa periodicamente redescobrir não importa qual seja o percurso de fulgurâncias geniais adotado.

Para isso, o intrépido precisará de um guia, também capaz de escalar sem pressa para fora dos caminhos pisados, alguém improvável cuja presença se torna imediatamente uma evidência.

Maura Baiocchi é dessa têmpera. Boina na cabeça, rosto sombrio com sobrancelhas proeminentes e um nariz vermelho que evoca tanto o frio persistente quanto o palhaço, vestida como se saísse da clínica de Rodez, ela chega de onde não era esperada: do fundo da sala. Então, ela se aproxima lentamente do palco, um caderno rabiscado com palavras de Artaud nas mãos, provocando alguns espectadores, pedindo-lhes, às vezes, a ler uma frase.

Entre Nosferatu e Pina Bausch, na língua do “Mômo”, ela cria imediatamente um clima de estranha estranheza. Não será uma leitura de textos, mas uma performance em torno do autor do “Teatro da Crueldade”.

Maura Baiocchi é “Madame Artaud”, dançarina e feiticeira brasileira, atriz esboçando uma ironia ou sussurrando, de maneira distanciada, para o lado. Impondo sua maestria sem nunca fazer medo, ela tem o passo leve e parece mesmo voar entre as projeções de vídeo que revestem a parede do palco.

Pouco a pouco, os textos de Artaud tornam-se menos abstratos, iluminam-se nas hesitações intencionais e repetições ensaiadas da atriz para encontrar a palavra correta. O todo terminará em uma apoteose interminável com a conferência pronunciada por Artaud no Vieux-Colombier em 1947. Retornando dos mortos depois de sofrer os caprichos elétricos do Dr. Gaston Ferdière, ele revela seus segredos desarrazoados.

Maura Baiocchi está além da encarnação. Terrivelmente dupla, ela é Artaud sem nunca deixar de ser a atriz que o encena. Lição sobre a arte de atuar, seu desempenho nos deixa atônitos.

Se ela errou ou acertou ao exagerar Artaud, se provocou irritação ou admiração, se ela deixou nos petrificados ou afetados, nada mais importa: as palavras do “Mômo” atingiram o alvo e esta é a sua proeza essencial e necessária.

(Tradução de Wolfgang Pannek)

 

Performance de Maura Baiocchi autour de textes de Antonin Artaud _ (Texto original em francês)

 

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